Pular para o conteúdo principal

Quasicamadas eletromagnéticas abrem caminho para hardware reconfigurável

As paredes de domínio surgem nas interfaces entre os domínios no interior de substâncias cristalinas específicas. [Imagem: Queen s University Belfast]
Paredes de domínio

Se folhas planares atomicamente finas - como o grafeno e a molibdenita - já prometem misérias para a tecnologia do futuro próximo, imagine uma película cujas propriedades possam ser ligadas, desligadas e até movidas ao longo do material.

Pois é justamente isso que Raymond McQuaid e seus colegas da Universidade Queen's de Belfaste, no Reino Unido, acabam de apresentar.

McQuaid descobriu uma nova maneira de criar "folhas" eletricamente condutoras extremamente finas, que existem apenas no interior de cristais. Elas são chamadas "paredes de domínio", uma região de transição entre domínios magnéticos adjacentes - domínios magnéticos são regiões do cristal com diferentes orientações magnéticas.

Ou seja, apesar de a equipe chamar as estruturas de "folhas", não se trata exatamente de um filme fino ou de uma camada atômica concreta, mas de camadas no interior de um material cristalino, que pode ele próprio ser um filme fino - seriam camadas virtuais ou "quasicamadas" atômicas.

Circuitos eletrônicos reconfiguráveis

As folhas são quase tão finas quanto o grafeno, abrangendo apenas algumas camadas atômicas. No entanto, elas podem fazer algo que o grafeno não pode - eles podem aparecer, desaparecer ou se mover dentro do cristal, sem alterar permanentemente o próprio cristal.

Isso abre possibilidades sem precedentes para criar circuitos eletrônicos reconfiguráveis, que podem se rearranjar continuamente para executar tarefas diferentes de forma otimizada, em lugar dos processadores eletrônicos atuais com suas estruturas fixas.

"Nossa pesquisa sugere a possibilidade de gravar 'rascunhos' de conexões elétricas em nanoescala, nas quais os padrões de fios eletricamente condutores podem ser desenhados e, em seguida, apagados novamente sempre que necessário. Desta forma, circuitos eletrônicos completos podem ser criados e, em seguida, reconfigurados dinamicamente quando necessário para desempenhar um papel diferente, derrubando o paradigma de que os circuitos eletrônicos precisam ser componentes de hardware fixos, tipicamente projetados com um propósito dedicado em mente," disse o professor Marty Gregg, coordenador da equipe.






As estruturas virtuais são criadas mecanicamente, usando uma espécie de "acupuntura". [Imagem: Queen s University Belfast]
Acupuntura magnética

Para trazer esses circuitos eletrônicos reconfiguráveis do reino das possibilidades para a realidade, as folhas 2D precisam ser criadas na forma de longas paredes retas, de forma que possam efetivamente conduzir eletricidade e imitar o comportamento de fios metálicos reais. Também será essencial poder escolher exatamente onde e quando as paredes de domínio surgem, como reposicioná-las e como excluí-las.

A equipe já avançou alguns passos nesses desafios. Eles demonstraram que paredes de domínio longas podem ser criadas exercendo uma pressão sobre o cristal precisamente no ponto onde as folhas são necessárias, usando uma espécie de "acupuntura", com uma agulha bem afiada. As folhas virtuais podem então ser movidas dentro do cristal usando campos elétricos aplicados para posicioná-las.

"Tomados em conjunto, esses dois resultados são um sinal promissor para o uso potencial das paredes condutoras em nanoeletrônicos reconfiguráveis. Nós mostramos que essas paredes podem ser movidas usando campos elétricos, sugerindo compatibilidade com os dispositivos convencionais operados eletricamente," completou McQuaid. 

Postado por David Araripe

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fármaco brasileiro aprovado nos Estados Unidos

  Em fotomicrografia, um macho de Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose CDC/G. Healy A agência que regula a produção de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, concedeu o status de orphan drug para o fármaco imunomodulador P-Mapa, desenvolvido pela rede de pesquisa Farmabrasilis, para uso no tratamento de esquistossomose.  A concessão desse status é uma forma de o governo norte-americano incentivar o desenvolvimento de medicamentos para doenças com mercado restrito, com uma prevalência de até 200 mil pessoas nos Estados Unidos, embora em outros países possa ser maior. Globalmente, a esquistossomose é uma das principais doenças negligenciadas, que atinge cerca de 200 milhões de pessoas no mundo e cerca de 7 milhões no Brasil.  Entre outros benefícios, o status de orphan drug confere facilidades para a realização de ensaios clínicos, após os quais, se bem-sucedidos, o fármaco poderá ser registrado e distribuído nos Estados Unidos, no Brasil e em outro...

Nova forma de carbono é dura como pedra e elástica como borracha

Visualização do carbono vítreo ultraforte, duro e elástico. A estrutura ilustrada está sobreposta em uma imagem do material feita por microscópio eletrônico. [Imagem: Timothy Strobel] Muitos carbonos O carbono é um elemento químico cujas possibilidades de rearranjo parecem ser infinitas. Por exemplo, os diamantes transparentes e superduros, o grafite opaco e desmanchadiço, o espetacular grafeno , todos são compostos exclusivamente por carbono. E, claro, temos nós, os seres humanos, formados em uma estrutura de carbono. E tem também o diamano , o aerografite e, agora, uma nova forma que parece ser um misto de tudo isso. Meng Hu e seus colegas das universidades Yanshan (China) e Carnegie Mellon (EUA) criaram uma forma de carbono que é, ao mesmo tempo, dura como pedra e elástica como uma borracha - e ainda conduz eletricidade. Essas infinitas possibilidades do carbono parecem ser possíveis porque a configuração dos seus elétrons permite inúmeras combinações de autoligação, dando or...

Receita de grafeno para micro-ondas: Cozinhe por 1 segundo

Óxido de grafeno Um dos grandes entraves ao uso prático do grafeno é a dificuldade de produzi-lo: não é fácil fazer uma camada de apenas um átomo de espessura e mantê-la pura e firme para que suas incríveis propriedades sejam exploradas em sua totalidade. Quando ganharam o  Nobel por seus trabalhos com o grafeno , Andre Geim e Konstantin Novoselov contaram que isolaram o material usando uma fita adesiva para retirar pequenas camadas de um bloco de grafite. O problema é que não dá para fazer desse jeito em escala industrial, ou mesmo retirar o grafeno intacto da fita adesiva para conectá-lo a eletrodos, por exemplo. Atualmente, o modo mais fácil de fazer grandes quantidades de grafeno é esfoliar o grafite - o mesmo material dos lápis - em folhas de grafeno individuais usando produtos químicos. A desvantagem é que ocorrem reações secundárias com o oxigênio, formando óxido de grafeno, que é eletricamente não-condutor e estruturalmente mais fraco. A remoção do oxigênio do ...